“A Marcha do Orgulho, promovida por todas as associações e colectivos gays e lésbicas do País, fazendo em várias cidades.
Porquê uma Marcha?
- Para nos dar visibilidade, coisa que o Arraial Pride já faz, ao juntar milhares de pessoas, mas mais pelo lado festivo. Com uma Marcha, ganhamos outro tipo de afirmação: a de uma comunidade que está a construir um associativismo cada vez mais participado, que quer ter direitos iguais, que recusa a condenação moral das suas identidades sexuais e que deseja o fim das discriminações legais e quotidianas de que é alvo. É que, face à sociedade portuguesa e ao poder político, antes de podermos trabalhar para podermos “ser vist@s seriamente”, como pessoas que somos independentemente da nossa sexualidade, temos, antes de mais, que “servist@s”. Ou seja, deixar de ser ignorad@s. Porque uma das mais gravosas formas de manter no ‘gueto’ a comunidade LGBT é a omissão permanente de todas as possibilidades para além daheterossexualidade. A omissão da nossa própria existência. Por isso, uma festa pública como o Arraial Pride é importante, mas não chega. Antes de podermos exigir ser cidadãos de pleno direito, temos que forçar a sociedade hetero em que vivemos – e sobretudo o Estado – a reconhecer que existimos, não apenas através de uma festa mas enquanto cidadãos com direitos. Só depois a nossa voz terá algum peso.
Porquê nesta altura?
- Para comemorar o 28 de Junho, Dia Internacional de Luta da comunidade LGBT (lésbica, gay, bissexual, transgender e, acrescentaria eu, de outras identidades sexuais fora da “norma”, porque nem todas as pessoas com comportamentos homossexuais ou transgender se revê nestes termos). O 28 de Junho – data em que, em 1969, Nova Iorque assistiu à revolta histórica que ficou conhecida como Motim de Stonewall, em que a sua comunidade homossexual e transgenderresistiu pela primeira vez contra a violência policial de que era alvo – é o dia-referência à volta do qual as comunidades LGBT de todo o mundo organizam os seus maiores momentos públicos de festa, reivindicação social e política e de afirmação. Foram necessários muitos anos e o esforço de muita gente para que pudéssemos ter as nossas próprias comemorações em Portugal.
Porque lhe chamamos “do Orgulho”?
Ora cá está um termo que causa engulhos a muita gente, por ser mal interpretado. Quando as associações falam de Orgulho, isso não significa que estejamos a falar de Orgulho da nossa orientação sexual ou identidade de género (como ter orgulho de algo que não escolhemos? quem tem orgulho na sua orientação, geralmente, são @s heterossexuais, que a vêem como a única “natural”), mas sim de Orgulho por recusarmos a carga moral de vergonha que a sociedade continua a impor a estes comportamentos sexuais. É preciso falar de Orgulho e combater a vergonha, não só porque as próximas gerações de jovens LGBT, nos seus processos de descoberta da sexualidade, têm pela primeira vez a hipótese – que foi negada à maioria até hoje – de crescer com referências positivas da homossexualidade, mas também porque a maioria da comunidade LGBT de hoje continua a sofrer de sentimentos de culpa e de vergonha face à sua sexualidade (a começar pel@s LGBT que não se julgam discriminad@s), e a não viver bem com ela. É preciso afirmar que o que torna difícil de viver esta sexualidade é a discriminação. Mas que ela, por si, não só não tem nada de mal, como é tão natural de viver quanto a heterossexual. Repito: não é que estejamos orgulhosos de sermos LGBT, mas estamos certamente orgulhosos de cada vez nos escondermos menos e de dizer que não temos vergonha de quem somos. O movimento negro que lutava contra a segregação racial nos EUA dos anos 60 inventou o “black is beautiful”, por compreender que para exigir e ganhar direitos, os afro-americanos tinham, primeiro, que cultivar o auto-respeito. O mesmo se passa connosco, depois de 2000 anos de condenação e cultura heterossexista.
Não é um evento demasiado “folclórico”?
- Por acaso, os comentários que têm chegado às associações são de que a Marcha tem sido tão séria que quase parece uma manifestação sindical (sem desprimor). Este ano, tentar-se-à que seja mais alegre, sem que perca o seu carácter reivindicativo. Mas, cuidado com esta armadilha do “folclore”, com que tantos jornalistas e mesmo homossexuais têm confrontado as associações. Primeiro, a Marcha tem sido um evento diverso, com muita expressões diferentes da comunidade, e não apenas as ligadas ao travestismo, ao transformismo ou a outras formas detransgenderismo. Segundo, quanto mais pessoas forem à Marcha, mais ela se diversifica e menos relevo terão manifestações particulares em benefício da diversidade do conjunto. Terceiro, não se trata de “folclore”, e quem nos fala nesses termos está a discriminar – a insultar, mesmo – uma parte das muitas formas de expressão que o nosso movimento tem encontrado para se manifestar: não só @s transgenders têm também direito de participar nas nossas Marchas – não serão igualmente discriminad@s? – como me parece que chamar-lhes “folclore” é aplicar ao movimento LGBT os mesmos critérios morais que têm estado na base da nossa discriminação. Porque é que é só connosco que os jornalistas usam este termo, quando outros movimentos têm manifestações igualmente “folclóricas”, até, sim, com pessoas mascaradas ou travestidas? Porque, à partida, se baseiam no preconceito contra a homossexualidade. É isso que realmente parece “chocar”. Agora, homens vestidos de mulher? Se isso, por si, choca, alguém devia falar com o Alberto João Jardim e metade dos homens deste País para pararem de o fazer todos os carnavais (ali já não incomoda?). Mas se isso choca, tanto melhor, talvez passem a dar-nos atenção. A mim choca-me é a discriminação e a injustiça. E nela, estamos tod@s junt@s e ninguém deve ser excluíd@. Porque é que nos havíamos de manifestar como nos quer a sociedade heterossexual? Não iríamos longe: combate à homofobia exige mudar a mentalidadeheterossexista. Esta não desaparecerá por si, só para nos fazer o jeito. É preciso que ponhamos as pessoas a pensar. E não é possível fazê-lo sem incomodar.
“Pois é, mas eu não quero dar a cara…”
..dirá a maioria. Dar a cara continua, infelizmente, a ter consequências negativas neste País. Mas é mesmo por isso que é preciso que cada vez mais gente saia do armário ou, pelo menos, se envolva com o associativismo LGBT: para inverter essa situação injusta. Para que um dia “dar a cara” seja tão natural como lavar os dentes e seja tão banal que não acarrete discriminação. De qualquer forma, na Marcha, só dá a cara quem quer. A maioria das pessoas que participa tem-no feito. Quem não pode ou não quer – o medo é legítimo – tem inventado formas de permanecer discreto: desde pintar a cara até, simplesmente, manter-se longe das câmaras (o que é fácil, no meio de tanta gente). Também há quem argumente que não tem nenhuma necessidade de sair à rua enquanto gay, lésbica, etc, porque ninguém tem nada a ver com a sua sexualidade. Só que sendo isso verdade – ninguém tem nada ver – certo é que hoje, por causa dela, nos são vedados direitos sociais e cívicos, o que faz com a questão deixe de ser apenas do foro íntimo. É preciso dar a cara hoje, para que no futuro não haja necessidade disso, por termos finalmente conseguido construir uma sociedade melhor, em que as pessoas não sejam definidas pela sua orientação sexual. Para isso, precisamos de mudar mentalidades, leis, e a atitude do poder político. Mas este nunca nos dará atenção enquanto não perceber que nos temos consciencializado dos direitos que nos faltam, enquanto perceber que a maioria da comunidade continua a não sair à rua pelos seus direitos, esperando que outr@s o façam por si. Temos que ser muit@s, e a participação de toda e cada pessoa é importante para lá chegarmos.”
Sérgio Vitorino, GTH – PSR
http://clubesafo.com/Actividades/marcha.html
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Eu não quero ser gay à sombra da comunidade LGBT, por isso é muito importante, ainda hoje, assumir.
em que local sera a marcha?
No Porto a marcha do orgulho começa dia 7 de Julho ás 15:30 na praça da republica